Seria mais fácil dizer que a miséria e a fome são desígnios de Deus, que fazem parte das nossas provações, da expiação dos nossos pecados para atingir o paraíso. Mas não. Não para nós que somos os culpados. Não para nós que perdemos a capacidade de indignação e a vergonha. Não para nós que permitimos que a aculturação fosse a arma dos nossos algozes para nos dominar.
E então eles inventaram a democracia, pois assim, com o voto, damos a chave das nossas consciências para que eles possam legitimar suas barbáries. Barbáries como a Copa do Mundo de 2014 que vai custar dezenas de bilhões de reais. Mas que não indigna ninguém, pois muitos serão locupletados; os políticos com dinheiro, a imprensa com notícias e o povo, bah, o povo com muita arena e muito espetáculo. Como na Grécia e na Roma antiga. Nesse tempo nenhum subnutrido sentirá mais fome, as filas dos hospitais ficarão quase esvaziadas, não faltarão recursos para medicamentos que aliviem a dor dos pobres moribundos do nosso Sistema Único de Saúde.
Mas o grande problema mesmo é se chegarmos a não ganhar a copa. O Brasil vai entrar em depressão. Haverá grande alvoroço. Comoção popular, talvez uma revolução, porque honestamente o país se exalta com pouco. Vai pras ruas protestar por seus direitos. Direitos das crianças, dos velhos, das mulheres, dos gays, lésbicas, travestis, animais, do ambiente, ao credo, etc etc etc. Mas se esquece do direito primordial que é o da cidadania. Do direito a vida com qualidade e a educação com excelência. Criamos um emaranhado de leis e direitos onde não há espaço para outros códigos com deveres iguais.
Mas não faltará nunca quem diga que até a África, o continente mais pobre patrocinou uma Copa do Mundo. E eu lhes direi que lá, são tão desgraçadamente promíscuos que não são capazes de se dar conta da própria desgraça. Talvez não catem restos que ninguém deixou nos lixos. Mas aqui, na nossa pátria amada, idolatrada, nós os vemos apenas pela televisão a quebrar o frio aquecido pelo álcool e pelas drogas, a cometer crimes impunes por um sistema que também é viciado. Aqui, só o que gastamos com nossos animaizinhos de estimação curariam a fome de proteína de todas as crianças da África.
Somos realmente uma espécie rara. O homem é realmente o lobo do próprio homem. Há tantas guerras e tanta maldade, mas somos uma espécie que nunca entra em extinção. Do alto de nossa estupidez estamos convencidos de que somos superiores e que por isso mesmo sobreviveremos a ira de todos os Deuses.
Elder Soares Piantá
Nenhum comentário:
Postar um comentário